De Música

A revista De Música surgiu numa época prolífera em publicações especializadas em música. Ao longo das décadas de 1920 e 1930, estiveram em circulação várias revistas de conteúdo e orientação bastante similares, como Revista Musical (1924), A Clave de Sol e Música (1927), Lyra (1927-1928), Eco Musical (1911-1931) e Arte Musical (1930-1947). A maioria teve uma duração muito breve, traduzida em poucos números ou anos de publicação e De Música, publicada entre Junho de 1930 e Maio de 1931, com quatro números, conta-se entre essas. Porém, a sua estrutura e os ensaios e partituras que publicou distinguem-na das restantes revistas de música coevas. Nela não se encontram as habituais secções de noticiário, de agenda e de comentário crítico aos concertos, nem perfis biográficos de compositores ou sínteses de história da música, características dos periódicos de música desde finais do século XIX. Em vez disso, De Música apresentou-se como uma revista formativa e de reflexão, abordando temas de estética e teoria musical e assumindo uma postura de defesa da cultura erudita.

De Música confrontou-se com um meio algo adverso ao tipo de periódico que os seus directores ambicionavam. Fernando Lopes-Graça, editor de De Música, reconhecia que a revista se debateu com algumas reacções desfavoráveis desde o início. No artigo que escreveu à margem do V Congresso Internacional da Crítica, realizado em Lisboa em Setembro de 1931, elaborou um resumo histórico de caracterização dos períodos e protagonistas da história da música portuguesa e de avaliação do estado cultural do país, em crise e consideravelmente atrasado em relação a outros países europeus. A inexistência de periódicos especializados em música era um aspecto que contribuía para a situação e dava como exemplo o caso de De Música, cuja publicação tinha sido interrompida somente uns meses antes, como o único que considerava reunir capacidades para fomentar uma cultura musical séria. Contudo, como o autor explicava, De Música fora vítima da pequenez do meio musical e as queixas junto do Inspector do Conservatório Nacional suscitadas pelo comentário crítico ao livro de Alfredo Pinto (Sacavém), publicado no primeiro número, eram disso prova1.

Algumas das questões abordadas por Lopes-Graça na crítica ao livro de Pinto (Sacavém) seriam desenvolvidas no segundo número de De Música. Nele, Lopes-Graça procedeu a uma avaliação da crítica musical portuguesa e estabeleceu etapas para a reforma dos hábitos e mentalidades, defendendo que a opinião pública deveria estar entregue a especialistas. Esta percepção de que faltavam habilitações literárias e científicas aos críticos de música e autores para orientar o público repercutiu-se na entrevista à revista Ilustração, tendo sido partilhada pelos colegas também entrevistados, e em várias das crónicas que assinou para a série “Panorama Musical Português”, na Seara Nova. A edição da revista De Música localiza-se, na cronologia da produção ensaística e jornalística de Lopes-Graça, entre a colaboração com duas publicações da oposição: o jornal A Acção (1928-1931), do qual foi director, e a revista Seara Nova, para a qual começou a escrever em Fevereiro de 1931. As três publicações forneceram, nos primeiros anos de vida pública de Lopes-Graça, espaços particulares para o compositor expressar o seu pensamento a respeito da cultura musical portuguesa, do modernismo e do nacionalismo na música, questões que continuaria a desenvolver no decurso da colaboração com a Seara Nova e noutros periódicos.

No conjunto de artigos publicados na De Música, percebe-se um pouco o caminho que os seus directores pretendiam seguir, não somente pelo conteúdo, mas também pelas colaborações que receberam. De Música foi um espaço de afirmação da nova geração de músicos que tinham beneficiado da reforma do Conservatório Nacional de 1919, levada a cabo por José Viana da Mota e Luís de Freitas Branco. Como Manuel Deniz Silva observa, embora a revista não se tenha constituído como um manifesto estético do chamado Grupo dos Quatro, de que fizeram parte Lopes-Graça, Pedro do Prado, Armando José Fernandes e Jorge Croner de Vasconcelos, contribuiu para a sua definição como um movimento e para lhe dar maior visibilidade junto da elite intelectual e artística portuguesa2. Com direcção de Prado e Lopes-Graça, que foi um dos redactores mais regulares, De Música recebeu a contribuição de Fernandes (a partitura de Scherzino, para piano) e de Croner Vasconcelos (a partitura de Descalça vai para a fonte, para voz e piano, e o texto de uma palestra apresentada em audição escolar). Mas contou também com a colaboração de outros colegas músicos e/ou estudantes do Conservatório Nacional, entre os quais Francine Benoît (professora, crítica musical e compositora), Frederico de Freitas (compositor) e Maria Helena Leal (pianista). A colaboração dos compositores e professores do Conservatório Nacional, Tomás Borba e Luís de Freitas Branco, bem como a escolha de duas peças de Francisco de Lacerda para publicação e do artigo do filósofo Vieira de Almeida para abertura da revista, podem ser entendidas como uma procura de validação da revista e das suas intenções junto das gerações anteriores. Como Deniz Silva aponta, “les éditeurs de la revue fabriquaient ainsi, à travers le choix de leurs maîtres, une généalogie intellectuelle et esthétique pour la nouvelle génération musicale”3. É particularmente relevante a publicação de “A música e o pensamento latino” por Luís de Freitas Branco, artigo revelador dos ideais latinistas e da concepção histórica e de defesa de um novo classicismo que marcaram o pensamento do compositor e pedagogo. O artigo suscitou uma troca de ideias entre o autor e Francisco Fernandes Lopes (médico e melómano residente em Olhão, com ligações à vida musical de Lisboa) que evidencia o espaço que a revista pretendia conceder ao debate edificante de questões musicais.

Mariana Calado


  1. Fernando Lopes-Graça, “Panorama Musical Português”, Seara Nova, n.º 264, 25 de Setembro de 1931, p. 379.↩︎

  2. Manuel Deniz Silva, “La Musique a besoin d’une dictature”: musique et politique dans les premières années de L’Etat noveau portugais (1926-1945), Dissertação de Doutoramento, Université de Paris 8, p. 138.↩︎

  3. Idem, ibidem, p. 139.↩︎