Pedro do Prado
Fernando Lopes GraçaDados editoriais
De Música foi publicada entre Junho de 1930 e Maio de 1931, de que resultaram quatro números. Apesar de a periodicidade nunca ter sido anunciada, a frequência de publicação deve ter sido mais irregular do que era pretendido pois o intervalo de tempo entre cada número não foi regular.
Graficamente, apresentava um aspecto sóbrio: duas colunas por página e sem qualquer ilustração, nem mesmo na capa, que exibia simplesmente o título da revista. A reduzida publicidade que publicou anunciava as edições de obras literárias e musicais de colaborares da revista e as marcas representadas na Casa Olavo, de comércio de instrumentos musicais e partituras.
De Música foi fundada por Pedro do Prado e Fernando Lopes-Graça, que ocupavam os cargos de director e de editor, respectivamente. Lopes-Graça foi um dos principais contribuidores da revista, tendo escrito quatro crónicas, uma para cada número, que seriam posteriormente reeditadas nos volumes de ensaios que Lopes-Graça publicou ao longo da sua vida (à excepção da primeira crónica). Entre os restantes colaboradores, a revista contou sobretudo com a presença de autores ligado ao meio musical, nomeadamente Tomás Borba e Luís de Freitas Branco (compositores e professores do Conservatório Nacional de Lisboa), Francine Benoît (professora, compositora e crítica musical), Francisco Fernandes Lopes (médico e músico amador), assinalando-se, ainda, a contribuição do filósofo Francisco Vieira de Almeida logo na abertura do primeiro número. Cada número incluía a publicação de uma partitura de peças para piano ou para voz e piano cuja escolha acentuou a identidade da revista e do seu grupo editorial. Foi, igualmente, uma forma de projecção do trabalho de alguns compositores mais novos e que viriam a marcar uma parte do panorama musical português do século XX. Descalça vai para a fonte, de Redondilhas de Camões, de Jorge Croner de Vasconcelos (1910-1974), seria publicada no N.º 1, de Junho de 1930, e, à data da morte do compositor, constituía um dos dois únicos exemplares de obras publicadas durante a sua vida1. No segundo número, apresentou-se Nocturno, para piano, de Frederico de Freitas (1902-1980); Scherzino, para piano, de Armando José Fernandes (1906-1983), com dedicatória ao pianista Lourenço Varela Cid, foi publicado no terceiro número; Queixa…, para canto e piano, de Francine Benoît (1894-1990), sobre poema de António Sardinha, e duas peças de Francisco de Lacerda de Trente-six histoires pour amuser les enfants d’un artiste, para piano, no quarto número.
A história editorial de De Música pode ser ligada a três entidades: a Associação Académica do Conservatório Nacional, proprietária da revista; o Grupo dos Quatro, termo cunhado na imprensa para identificar os jovens compositores que então emergiam no meio musical português, Pedro do Prado, Fernando Lopes-Graça, Armando José Fernandes e Jorge Croner de Vasconcelos; e o círculo de Vergília do Canto Brandão (1900-1981). Estudante do Conservatório Nacional, Canto Brandão organizava na sua residência na Rua Luís Bívar, em Lisboa, uma tertúlia artística e cultural frequentada pelos jovens compositores e outros músicos e colegas do Conservatório Nacional, como Eduardo Libório, Ivo Cruz, Sarah Navarro Lopes, Antónia Colaço e Florinda Santos, mas também os pintores José Tagarro, Tomás de Mello, Helena Vieira da Silva e Arpad Szenes, os escultores Ernesto Canto da Maia e Henrique Albuquerque, a actriz e escritora Manuela Porto e o filósofo Vieira de Almeida.
A Associação Académica do Conservatório Nacional foi fundada em 1919, segundo referência de Bertino Daciano2. Este organismo promovia a realização de concertos por estudantes da escola de música e de obras de compositores portugueses, mas desconhece-se em concreto qual a extensão da sua actividade. Pedro do Prado era director da associação aquando da publicação de De Música, tendo-se mantido naquele cargo até 1939. Apesar de a revista ser propriedade da associação, e de os associados serem incentivados a subscrevê-la, conforme se lê num artigo de Francine Benoît sobre a revista, esta nunca fez referência à associação nem publicitou as suas actividades em qualquer um dos quatro números.
O lançamento de De Música coincidiu com a publicação, na revista Ilustração, de uma entrevista aos jovens compositores Pedro do Prado, Fernando Lopes-Graça, Armando José Fernandes e Jorge Croner de Vasconcelos (durante a qual, contudo, nunca se mencionou a revista) e com a realização de dois concertos de revelação das obras e programa musical do Grupo dos Quatro: no início de Maio de 1930, na Academia de Amadores de Música, e cerca de um mês depois, a 5 de Junho de 1930, na 17.ª audição escolar do Conservatório Nacional. Neste segundo concerto, em que se escutaram obras de estudantes dos cursos de composição, Jorge Croner de Vasconcelos apresentou também uma palestra, “O lugar da música na cultura geral”, que seria publicada no segundo número de De Música.
O fim abrupto da revista não foi antecipado, nem justificado. O último número publicado apresentou a continuação de um artigo sobre vocabulário musical, por Tomás Borba, e o debate entre Luís de Freitas Branco e Francisco Fernandes Lopes a propósito do artigo de Freitas Branco “A música e o pensamento latino”, que tinha sido publicado no segundo número. Incluía, ainda, os ensaios de teoria musical por Fernandes Lopes, e de estética e música moderna, a propósito de Stravinsky, por Lopes-Graça, a crítica a um livro de Irving Schwerké (pianista e musicólogo norte-americano), por Henrique Costa, e, por fim, a apresentação detalhada da missão da escola de música que Ivo Cruz e Eduardo Libório pretendiam fundar, a Cultural de Música. O encerramento da revista poderá ter-se devido a uma série de factores. O esforço pessoal e financeiro que implicava a manutenção de uma revista de especialidade foi, possivelmente, um deles. Também a detenção de Lopes-Graça, em Outubro de 1931 (primeiro para a prisão do Aljube, depois desterrado em Alpiarça), por acusação de participação na Organização Comunista de Tomar e edição do jornal A Acção, provocaram uma ausência prolongada que terá dificultado a continuação de De Música. Mas coloca-se ainda a hipótese de o comentário de Lopes-Graça sobre o projecto “Cultural de Música”, publicado na Seara Nova, ter contribuído para a situação. O ambicioso projecto da escola foi apresentado por Ivo Cruz e Eduardo Libório no N.º 4 de De Música e criticado por Lopes-Graça e pela redacção da Seara Nova nesta revista3. O compositor criticava, sobretudo, a síntese histórica feita pelos outros dois autores, para sustentar a pertinência da criação da nova escola de música. Será que, à semelhança das reacções à crítica ao livro de Pinto (Sacavém), no primeiro número da revista, este comentário provocou novos reparos junto do Inspector do Conservatório Nacional ou a quebra de apoio dos seus autores à continuação da revista? Porém, se o projecto editorial ficou incompleto, os seus intervenientes mais participativos mantiveram actividade noutros órgãos de imprensa e a dar expressão às suas preocupações e perspectivas. Nomeadamente, Lopes-Graça iniciou colaboração com Seara Nova ainda em 1931 e, após estabelecimento em Coimbra, integrou o grupo da revista Presença; Francine Benoît continuou a escrever crítica e crónicas musicais em diversos jornais diários e revistas, dos quais foi mais destacada, nesta época, a posição de crítica musical que ocupava no Diário de Lisboa; Luís de Freitas Branco encontrava-se, então, a dirigir a revista Arte Musical, para o qual também escreveu diversos artigos, para além de manter colaboração com outros periódicos.
Mariana Calado
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Gil Miranda, Jorge Croner de Vasconcellos 1910-1973: Catálogo razoado da obra musical, Lisboa, Biblioteca Nacional de Portugal, 2004, p. 17.↩︎
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Bertino Daciano, “A música em Portugal (Subsídios para a sua história),” Arte Musical, 30 de Março, 1936, p. 6.↩︎
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Fernando Lopes-Graça, “Panorama Musical Português XV”, Seara Nova, n.º 253, 9 de Julho de 1931, pp. 203-207.↩︎










